A Evolução da Tecnologia Corporativa e o Papel da TI nas Empresas
Por
Redação
A tecnologia nas empresas está passando por uma transformação significativa, deixando de ser uma responsabilidade exclusiva do departamento de TI. Essa mudança é crucial, pois reflete como as organizações estão se adaptando às novas demandas do mercado.
De acordo com dados do Cetic.br, a utilização de inteligência artificial nas empresas brasileiras aumentou de 13% em 2024 para 17% em 2025. Nas grandes corporações, esse número subiu de 38% para 50%. Essa evolução demonstra que as empresas estão cada vez mais integrando essas tecnologias em seus processos internos.
Um dado importante é que 68% das empresas que adotam inteligência artificial já a utilizam para automatizar processos e fluxos de trabalho. Isso significa que a tecnologia está se tornando uma parte ativa na execução das operações, e não apenas uma ferramenta para consulta ou produção de conteúdo.
Com essa mudança, a TI deve repensar seu papel, deixando de ser vista como um serviço que atende a outras áreas e passando a ser considerada uma infraestrutura que deve ser construída em conjunto por toda a organização.
Os números mostram que essa transformação já está em andamento. Em 2025, 30% das empresas que utilizam essas tecnologias afirmaram que seus próprios funcionários desenvolveram os sistemas utilizados, um aumento em relação aos 25% de 2024. Entre as grandes empresas, esse percentual subiu de 24% para 26%, com 40% dos sistemas modificados por funcionários.
Essa mudança indica uma nova dinâmica entre negócios e tecnologia. Funcionários que conhecem bem suas operações podem identificar ineficiências e criar soluções sem a necessidade de formalizar cada demanda como um projeto de desenvolvimento. Isso traz agilidade, mas também aumenta a responsabilidade sobre a tecnologia, que antes estava concentrada em poucos profissionais.
Com mais pessoas capazes de criar ou modificar sistemas, surge a dificuldade em gerenciar quais aplicações existem, quais dados utilizam e quem pode alterá-las. A chamada “TI sombra” deixa de ser um problema secundário e se torna uma questão central de governança. Embora as empresas possam proibir ferramentas não homologadas, a demanda por soluções alternativas não desaparece.
Se uma equipe precisa esperar pela disponibilidade de desenvolvimento para resolver uma rotina que poderia ser automatizada, a busca por soluções paralelas se intensifica. O risco não está na autonomia em si, mas na falta de critérios para essa autonomia.
Os dados da TIC Empresas 2025 revelam que 86% das empresas que terceirizam funções de TI recorrem a fornecedores externos para suporte técnico, enquanto 37% terceirizam o desenvolvimento de aplicações. Nas grandes empresas, a terceirização do desenvolvimento chega a 62%. Isso mostra que a tecnologia corporativa é resultado de uma combinação de equipes internas, fornecedores e sistemas adquiridos, tornando a governança ainda mais urgente.
A resposta para essa nova realidade não deve ser a centralização total da tecnologia na TI, mas sim a definição clara do que pode ser descentralizado e o que deve permanecer sob controle. As áreas de negócio devem ter liberdade para automatizar rotinas de baixo risco e desenvolver soluções específicas, mas essa liberdade deve ser limitada quando envolve dados sensíveis ou processos críticos.
Em situações que envolvem dados pessoais ou informações financeiras, a responsabilidade técnica deve permanecer com a TI, que deve estabelecer padrões e critérios para o uso dessas tecnologias.
O crescimento do desenvolvimento interno reforça a necessidade de governança, pois não se trata apenas de escolher entre centralizar ou descentralizar, mas de evitar que a descentralização resulte em uma infraestrutura fragmentada.
A discussão sobre regulamentação também é relevante. Em julho de 2026, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados publicou um relatório sobre seu Sandbox Regulatório em Inteligência Artificial, identificando desafios e necessidades de aprimoramento em governança e segurança.
A mensagem para as empresas é clara: experimentar não significa operar sem controle. O mesmo princípio deve ser aplicado internamente. À medida que se torna mais fácil criar soluções, é essencial estabelecer mecanismos que definam o uso de dados, controle de acesso e registro de alterações.
O erro estratégico seria ver essa transformação como uma disputa entre profissionais de tecnologia e funcionários de outras áreas. A verdadeira questão é quem terá a responsabilidade em uma empresa onde cada vez mais pessoas podem produzir tecnologia.
Os dados do Cetic.br indicam que a mudança já avançou o suficiente para tornar inviável o modelo em que a TI concentra toda a construção tecnológica, enquanto o restante da organização apenas solicita e utiliza. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento interno ainda convive com fornecedores e softwares prontos, o que torna a governança ainda mais necessária.
A TI não perde relevância ao deixar de ser a única responsável pela construção de sistemas; pelo contrário, ganha um papel mais crítico, que é estabelecer as regras que permitem à empresa construir mais sem perder o controle sobre dados e processos.
A autonomia das áreas de negócio pode acelerar operações, mas somente a governança da TI pode garantir que essa velocidade não transforme a infraestrutura corporativa em um emaranhado de soluções incontroláveis.
* Flávio Calixto é CEO e cofundador do Mitra, plataforma de criação de sistemas corporativos com IA, especialista em plataformas de criação de sistemas corporativos com IA, com experiência em centenas de projetos, incluindo marcas globais como HSBC, Lego, Mitsubishi, Honda e AstraZeneca.
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