Inovação

Reflexões sobre o futuro da tecnologia e das empresas no Startup Summit

Redação Por Redação
15/09/2026 - 13:04 6 min de leitura

Por Rodrigo Hülsenbeck, CEO da Premiersoft.

No Startup Summit em Florianópolis, transformamos a Cybertruck em um estúdio para o Cyber Vision, o programa de entrevistas da Premiersoft. Durante o evento, recebi quatro convidados: Alexandre Souza, coordenador do Sebrae Startups; Diego Contezini, CEO do ASAAS; Tulio Vinicius Duarte Christofoletti, vice-presidente de Ecossistema da ACATE; e Moacir Marafon, cofundador da Softplan.

A ideia do Cyber Vision não é seguir um formato tradicional de entrevista. Prefiro colocar duas pessoas dentro do carro, deixar o protocolo de lado e permitir que a conversa flua. Em Florianópolis, entre deslocamentos e mudanças de rota, surgiram reflexões que ultrapassaram a tecnologia. Discutimos o futuro das empresas, a construção de produtos e a organização de equipes, além de como a forma de trabalhar e competir está se transformando. Ao rever as filmagens, percebi que as conversas estavam mais interligadas do que eu imaginava enquanto dirigia.

O playbook mudou

Logo no início, Alexandre destacou que o playbook que trouxe as empresas até aqui não é necessariamente o mesmo que as levará adiante. Um empreendedor que antes precisava montar uma equipe inteira para tirar uma ideia do papel agora pode criar protótipos e testar hipóteses com uma estrutura muito menor, utilizando ferramentas que antes não existiam.

Entretanto, é importante ressaltar que, embora as ferramentas tenham mudado, os fundamentos permanecem. É essencial entender o problema que se deseja resolver, dialogar com clientes, analisar o mercado, construir confiança, tomar decisões acertadas e executar. Resumindo, tecnologia é um meio, não um fim. Essa ideia se manifestou de maneiras diferentes nas quatro conversas.

A base que sustenta a IA

Na conversa com Diego Contezini, isso ficou claro. O ASAAS, com 300 mil clientes ativos e 16 anos de história, sabe a diferença entre crescimento real e histórias de sucesso instantâneas.

Ele explicou que a Inteligência Artificial já transformou significativamente a operação da empresa. Hoje, os líderes conseguem acessar e analisar dados que, há poucos meses, dependiam de relatórios elaborados pela equipe de dados. É como se centenas de analistas tivessem sido contratados.

Contudo, essa transformação só é possível porque existe uma base sólida. Dados organizados, governança, segurança, pessoas capacitadas e processos estruturados são fundamentais. Não adianta fornecer uma ferramenta de IA a milhares de pessoas e esperar resultados imediatos. Diego mencionou casos de empresas que tentaram forçar a adoção e acabaram com operações onde a IA custava mais do que o trabalho que deveria substituir. No ASAAS, o foco foi educar, criar consciência e estabelecer diretrizes seguras de uso antes de permitir a autonomia.

Para mim, essa é uma das discussões mais relevantes do momento. Ter acesso à IA não é uma vantagem competitiva; em breve, todos terão. A verdadeira vantagem reside na cultura, nos dados, nos processos e nas pessoas preparadas para extrair valor da tecnologia, o que é muito mais difícil de replicar.

Quando a barreira técnica cai

Com Túlio, a conversa abordou um ponto crucial. Durante muito tempo, a complexidade técnica foi uma barreira significativa: desenvolver software exigia capital, conhecimento especializado e equipes grandes. Essa barreira está diminuindo rapidamente, impulsionada pela evolução das ferramentas de desenvolvimento assistido por IA e pela democratização da infraestrutura em nuvem. Quando essa barreira é derrubada, o valor se redistribui. Quanto mais fácil se torna construir tecnologia, mais pesam o conhecimento do negócio, a capacidade de identificar bons problemas e o acesso a conexões relevantes.

Túlio resumiu bem: se alguém tem um conhecimento profundo de um setor, este pode ser um dos melhores momentos para transformar esse conhecimento em uma solução, pois a viabilidade técnica de levar uma ideia ao mercado nunca foi tão alta.

Isso também aumenta a importância dos ecossistemas. Discutimos uma característica admirável de Florianópolis: a disposição para a troca entre empresas, mesmo entre aquelas que poderiam se ver apenas como concorrentes. Na minha visão, essa mentalidade deve ir além. Nossa concorrência não se limita à cidade vizinha ou ao estado vizinho; o mercado é global. Esconder conhecimento de quem está ao lado faz cada vez menos sentido quando a alternativa é fortalecer o ecossistema como um todo e se preparar melhor para o mundo. A própria ACATE adotou essa visão como estratégia: ser uma ponte para o mundo, criando conexões para que empresas catarinenses acessem novos mercados.

Alexandre trouxe uma provocação semelhante sobre Santa Catarina: construímos muito, mas ainda precisamos aprender a mostrar melhor o que fazemos. Como ele disse, “não adianta só botar o ovo, tem que cacarejar”. Essa frase, embora bem-humorada, carrega uma mensagem séria. A excelência que ninguém conhece tem alcance limitado.

Uma decisão tomada há décadas

A última conversa trouxe uma nova perspectiva sobre as anteriores. Moacir Marafon, ao lado de seus sócios, construiu uma das maiores empresas de software corporativo do Brasil. A Softplan nasceu antes da internet comercial e passou por diversas mudanças tecnológicas ao longo de 36 anos.

Uma das decisões mais importantes da história da empresa não estava diretamente relacionada à tecnologia. Nos primeiros anos, a Softplan desenvolvia soluções para diversos mercados, até perceber que essa abordagem pulverizada limitava seu crescimento. A empresa decidiu, então, concentrar esforços em poucas verticais, uma escolha sobre onde competir.

Essa especialização resultou em décadas de conhecimento acumulado em setores como construção civil e justiça. Curiosamente, essa decisão, tomada no passado, se tornou uma vantagem na era da IA, pois a Softplan possui conhecimento e dados suficientes para desenvolver agentes altamente especializados. Marafon deu um exemplo impressionante: um processo de orçamento e planejamento de obras que levava até 44 dias agora é realizado em cerca de 33 minutos com o uso de agentes. Essa mudança não é apenas uma otimização; é uma transformação significativa.

Ele também observou que as ondas anteriores de tecnologia ajudavam a apoiar o trabalho, enquanto a IA começa a executá-lo. Se isso estiver correto, e acredito que sim, o impacto não será apenas sobre software, mas também sobre a estrutura das organizações. Líderes que hoje gerenciam grandes equipes passarão a coordenar grupos menores e um número crescente de agentes. Organogramas, funções e modelos de gestão precisarão ser repensados. Não sei exatamente como isso ocorrerá, e suspeito que ninguém tenha uma resposta precisa.

Tudo termina em pessoas

O que conecta as quatro conversas é que, embora tenhamos discutido Inteligência Artificial, agentes, dados, automação e novos modelos de negócio, o foco final não foi na tecnologia. Todas as conversas terminaram em pessoas: indivíduos capazes de identificar problemas, empreendedores que conhecem seus clientes, líderes que cultivam culturas adaptáveis, ecossistemas que compartilham conhecimento e profissionais que continuam aprendendo.

Sobre esse último ponto, Marafon trouxe uma reflexão que tenho repetido desde então: em um momento em que o que aprendemos hoje pode ser insuficiente amanhã, talvez a competência mais importante seja aprender a aprender.

Após as quatro conversas, deixei o Startup Summit ainda mais convencido de que a transformação em curso é imensa. Também saí com a certeza de que o futuro não pertencerá a quem tiver acesso à melhor tecnologia, mas a quem souber fazer as melhores perguntas, entender os problemas que realmente importam, aprender rapidamente e transformar tudo isso em valor real. As ferramentas podem mudar completamente, e vão mudar. A capacidade de construir continua sendo humana.

As notícias publicadas por esse autor são de fontes próprias e externas, e não representam o posicionamento do veículo.

Fonte: https://economiasc.com/2026/09/15/a-bordo-da-cybertruck-4-conversas-sobre-o-futuro/

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