O outro lado da guerra das maquininhas

A movimentação entre os adquirentes e suas maquininhas nunca foi tão intensa. Se você estiver olhando apenas para a taxa mais baixa ignora a mudança que essa competição está provocando no varejo

Crédito: Shutterstock

Há cerca de dois meses, a Rede, empresa de adquirência vinculada ao Grupo Itaú-Unibanco surpreendeu o mercado com um movimento agressivo: o fim da taxa cobrada na antecipação de recebíveis oriundos de pagamentos realizados com cartões de crédito. A antecipação de custo foi oferecida para todas as empresas e empreendedores com faturamento de até R$ 30 milhões que usam maquininhas da Rede e tenham conta no Itaú. A medida acendeu mais um rastilho de pólvora em um segmento que vive em competição intensa, com diversos players e fintechs disputando espaço e procurando conquistar a preferência de lojistas, prestadores de serviço e empreendedores individuais com suas maquininhas e soluções agregadas.

O lance da Rede representou um líder querendo impor seu jogo, depois de compreender que a natureza competitiva do negócio está em transformação. Desde que o mercado de adquirência foi liberado pelo Banco Central há pouco menos de uma década (com o fim da exclusividade que amarrava uma maquininha a uma bandeira apenas), o ambiente foi se tornando mais promissor para que empresas insurgentes pudessem se aproveitar dos problemas e vícios existentes, derivados da excessiva concentração em mãos de empresas organizações tradicionais. O mercado que se organizou em torno de Cielo e Rede, hoje ganha novas alternativas com a Getnet, Stone, PagSeguro e Bin/First Data para ficar apenas nos mais populares. Junto com a desregulamentação e o incentivo à competição veio também a possibilidade de embarcar inovações em série nas chamadas maquininhas. Assim, cada terminal hoje traz muito mais do que apenas permitir a compensação de pagamentos em débito e crédito, funcionando como uma central de soluções que incluem o pedido de antecipação de recebíveis, créditos rápidos, campanhas, oferta de seguros, cupons, e mais uma infinidade de dados obtidos a partir das transações.

O fato é que as maquininhas (tecnicamente conhecidas como POS) são hoje a face mais visível de um estilo de consumo digital, no qual os pagamentos eletrônicos são a porta de entrada para uma revolução que vai remodelar a face do varejo e dos serviços no mundo inteiro. Porque a captura de dados de um meio de pagamento – um cartão de crédito ou débito – de forma digital deu origem à uma série de inovações que redefiniu o varejo: carteiras digitais, pré-pagos, QR Codes, lojas com self checkout ou sem check out, pagamentos em totens ou robôs circulantes, aplicativos com descontos especiais e outros elementos que se combinam de múltiplas formas para oferecer a melhor experiência para o cliente.

O surgimento de novos players com múltiplos serviços e taxas mais competitivas tornou o mercado mais inclusivo. Se antigamente o pagamento com cartões era possível em redes de varejo de grande porte, hoje o mercado está incrivelmente mais inclusivo. Mesmo prestadores de serviço independentes – fisioterapeutas, manicures, personal trainers, professores particulares, dentistas – têm a sua maquininha à disposição para facilitar o recebimento de pagamento por seus serviços.

O aumento da oferta das maquininhas incentivou a criação de fintechs que, por sua vez, aperfeiçoaram a experiência de meios de pagamento, cartões de crédito gerenciados por apps, contas digitais, plataformas de investimentos. O binômio cartões e adquirentes hackeou o dinheiro físico e gerou uma lacuna que permite às startups confrontarem os grandes bancos de varejo. Mas nada disso se concretiza sem que o varejo compreenda seu papel nessa nova formatação de cenário.

As redes varejistas, de maneira geral, necessitam entender que os avanços oferecidos aos consumidores nas transações – pagamento via carteiras digitais, por aproximação, via celular, QR Code, pré-pagos, etc – precisam se estender à experiência de loja como um todo. Globalmente, essa tendência parece ter sido assimilada, como mostramos em diversos artigos publicados durante o World Retail Congress este ano, mas, no Brasil, ainda registramos iniciativas tímidas, elementares, que talvez traduzam alguma diferenciação, sem força para mudar os rumos do mercado, e pouco valor adicionam ao cliente. A debilidade geral da inovação produzida em nosso mercado (incluindo o varejo), tem relevância diminuta pela ausência de personalização, baixa velocidade, e pouca conexão com as aspirações e expectativas dos consumidores.

Escolher o melhor adquirente para seu varejo, significa pensar a loja como ambiente de conversação, como mídia e central de conteúdo exclusivo, capaz de emocionar e trazer sensações diferentes a cada novo dia. Os dados coletados nas transações trazem insights valiosos que podem ser replicados na experimentação constante do ambiente, para aprimorar a experiência geral nos canais trazendo fluidez em cada etapa da jornada do cliente até a efetivação da transação.

Por conta dessa nova necessidade, a guerra das maquininhas não pode ser encarada como uma busca por menores taxas nas compensações de transações e sim como a primeira etapa de um processo de transformação digital que unifique os canais em torno de uma plataforma. A partir daí o consumidor precisa ter acesso a uma experiência intensa, envolvente e que redimensione a transação como mais um elemento relacional e capaz de criar vínculos sólidos entre ele e a rede varejista.