TNG vai fechar metade da área em shoppings para acabar com latifúndio improdutivo

Em entrevista exclusiva à NOVAREJO, o presidente da TNG, Tito Bessa Jr. fala que confecção tem até 50% de área improdutiva nos shoppings

Tito Bessa Jr. é presidente da TNG (foto: Douglas Luccena)

A TNG está engajada em reduzir o tamanho da área ocupada dentro dos shoppings a afim de reduzir custos. Para o presidente da rede, Tito Bessa Jr., a mudança em nada afetará as vendas, já que, segundo o executivo, a partir de determinada metragem, as lojas de roupas são incapazes de produzir vendas a mais, criando um verdadeiro latifúndio improdutivo no varejo de moda.

Confira a entrevista:

Por que a ideia de reduzir a área das lojas de shoppings? 

O que eu estou fazendo agora é reduzindo o tamanho de lojas nos shoppings pelo custo que têm. Existe uma zona, uma metragem quadrada para o ramo de confecção específico que você aumenta e só agrega custo, não agrega venda. Eu tenho discutido muito isso com os shoppings, então, quando você vê a performance das lojas de confecção, são lojas que performam bem até 80 a no máximo 100 metros. Passou disso, você entra num limbo e a venda não cresce proporcional. Então, às vezes você vende com 80 metros o que você vende com 130, é o que está acontecendo com a gente.

A ideia é voltar ao passado, voltar a ser a TNG que nasceu com lojas de metragem entre 70 a 80 metros. Em determinado momento, essa metragem foi aumentada e hoje a gente percebe que existe uma metragem no ramo de confecção que eu chamo de limbo, não agrega venda, mas agrega custo desde ocupação a funcionários.

E desde quando você observou essa necessidade de reduzir área?

Depois do boom de 2014, que durou até meados de 2015, com toda a crise que aconteceu no varejo, eu percebi que a gente tinha uma metragem ociosa que só gerava custo e não gerava rentabilidade. E de lá para cá a gente vem se reposicionando com relação a metragem de loja.  A gente tem 170 metros quadrados de média nas nossas 180 lojas, e eu percebi que com a metragem quase que 50% ou 40% menor que é possível ter o mesmo desempenho.

Fizemos alguns testes e isso foi positivo, realmente aconteceu isso e desde 2015 passamos a renegociar junto aos locadores essa mudança, que não é fácil porque você já está instalado e muitas vezes o shopping não tem aquela área disponível que você precisa, tanto é que estamos há mais que 3 anos de negociação e a gente conseguiu fazer 40% da nossa rede, ainda faltam 60%. Temos 32 mil a 33 mil metros quadrados, precisamos tirar 10 mil metros quadrados, que significa por volta de 30% da área que a gente ocupa no total hoje e metragem que muita rede não tem no total. E precisamos tirar isso da nossa operação porque não está vendendo.

Em quanto tempo esse recolhimento deve ser finalizado?

É um trabalho que a gente tem obtido um relativo sucesso, mas ainda deve demorar por volta de 1 ano a 2 anos.

Esse é um sofrimento particular do segmento de confecção?

Sim. O que vende joia ou sapato, não vende confecção. Dentro do universo de lojas satélites, o tamanho chega a ter uma variação de 80%. A confecção performa R$ 17 mil por metro quadrado ao ano na média dentro dos shoppings, segundo pesquisa feita pela Abrasce junto ao IBOPE. No ramo de calçado, são R$ 21 mil a R$ 22 mil por metro quadrado ao ano, em joalheria, chega a 25 mil. São oscilações muito fortes e metragens muito distintas. A confecção vende 20% a 30% a menos e ocupa 20 a 30% a mais de área. Geralmente, as lojas de calçados, de forma geral, são de 50 a 60 metros, uma joalheria, 60 a 70 metros, vendendo quase que 80% a mais que a confecção e pagando a mesma coisa. O lojista que precisa se enquadrar dentro da sua possibilidade de venda. Toda loja grande é subsidiada, e toda loja pequena não tem subsídio.

Não adianta comparar com a venda de uma Arezzo – que eu considero a melhor venda por metro quadrado no Brasil entre as lojas satélites – que venda quase 50 mil reais por metro quadrado, mas tem 50 a 60 metros. E acho que o melhor de confecção não deve vender 25 mil, com exceção da Arezzo. Se essa marca partir para uma loja de 100 metros, ela só vai dar conforto e custo, e não vai aumentar rentabilidade.

A Ablos (Associação Brasileira de Lojas Satélites, entidade criada por Bessa para ser alternativa à Alshop) nasceu fundada e gerida por lojistas, não tem ninguém fora do varejo. Então, todos que estão lá sentem as dores da operação do seu dia a dia. À frente dessa associação, eu sinto que não é um movimento único da TNG, mas de todas as marcas de varejo, inclusive os magazines, que fizeram há um tempo atrás, quando deixaram de operavar lojas de 3 mil metros para opções de 1,5 mil e 2 mil metros. Mega lojas, dependendo do ramo, atuavam com 500 metros e estão reduzindo para 300.

O varejo está hoje sub-representado nas atuais associações de lojistas?

Eu resisti durante muitos anos à criação da Ablos, a gente sempre conversava com várias marcas e sempre me falavam para tomar a frente disso, converso há mais de dez anos com lojistas satélites a respeito disso, chegou um momento que eu decidi que eu ia tomar essa iniciativa. Não existe, apesar de todas as associações pelo País, com todo o respeito que eu tenho por todos elas, uma voltada para os interesses de lojas satélites. Tínhamos uma associação que parecia, lá no passado, que ia nos defender, mas não houve essa defesa. Não houve absolutamente nada, pelo contrário.

Qual a participação da expansão dos shoppings na crise de ocupação?

O relacionamento entre lojistas e empreendimentos já apresentou uma melhora nos últimos anos porque a dor fez com que todo mundo começasse a se mexer. Não doeu só no lojista, doeu para o empreendedor também. De 2013 ou 2014 para cá, vimos 110 ou 120 shoppings construídos. Desses, 80% com vacância de quase 40%. Erraram no tamanho.

Hoje, a Ablos está fazendo um estudo para ver quais dentre esses shoppings estão bem localizados, porque a gente sabe que tem shoppings que vão virar, como eu costumo brincar, universidade, laboratório, igreja ou qualquer outra coisa, de tão mal localizado que ele está. É um plano para encontrar soluções em conjunto para que a gente possa não exatamente salvar esses empreendimentos, mas, realmente, facilitar o relacionamento (entre shoppings e lojistas).

Muita gente colocou sua vida toda no varejo, eu mesmo tenho 36 anos de varejo. Tudo que eu tenho na vida está aqui dentro e tenho que me defender com unhas e dentes para preservar o que eu construí. E essa é a luta diária.