Os movimentos do grande varejo para aumentar seu capital político

As grandes empresas do varejo trabalham para converter o seu poder econômico em poder político ao se aproximar da equipe econômica do novo governo

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Na primeira década dos anos 2000, o varejo passou por um boom que teve seu auge em 2010, quando o setor cresceu acima dos 10%. Essa fase foi sucedida por uma queda brusca, de 2015 a 2017, o que mudou drasticamente o humor e a postura do empresariado do varejo, em especial de alguns dos grandes players.

A expectativa de reformas as relações de trabalho foi o que mais motivou o empresariado durante a conturbada troca de governo de Dilma Rousseff para Michel Temer. Concretizada a Reforma Trabalhista, os empresários do varejo ainda esperam os efeitos que foram sugeridos como consequência da flexibilização do trabalho.

O mote que move a militância dos grandes varejistas no governo Bolsonaro é, em especial, a Reforma da Previdência. “Ela é fundamental e isso foi dito por nós no encontro que tivemos com o ministro Paulo Guedes (Economia). Estamos nos aproximando do secretário Roberto Marinho. Assim como o apoiamos na Reforma Trabalhista, também apoiamos na reforma previdenciária. Com relação à Reforma Trabalhista, estamos acompanhando de perto o que está acontecendo”. Esse foi o panorama traçado por Antonio Carlos Pipponzi, presidente do IDV (Instituto para o Desenvolvimento do Varejo), organização que reúne alguns dos grandes players do setor, durante o 7º Fórum Lide do Varejo.

Entre os varejistas de grande porte que fazem parte do instituto estão Raia-Drogasil, Petz, Carrefour, Walmart, Riachuelo, Leo Madeiras, Renner, Magazine Luiza, GPA e Livraria Cultura.

Reformas fiscal e trabalhista

Pipponzi, que é presidente do Conselho da Raia-Drogasil, afirma que há receios ainda dos varejistas aderirem a algumas situações previstas na Reforma Trabalhista por conta dos vários processos de inconstitucionalidade que ainda travam a aplicação das novas regras, principalmente relacionadas ao trabalho intermitente, um dos pontos mais sensíveis às grandes empresas.

O presidente do IDV afirma que o instituto está bastante ativo com o novo governo e tem apresentado propostas relacionadas não apenas às questões previdenciárias e trabalhistas, mas também fiscais. “Estamos em conversa com o Waldery Rodrigues Júnior (secretário da Fazenda) e do Marcos Cintra (secretário-especial da Receita Federal). Temos a preocupação de evitar a sonegação para que as empresas que hoje investem muito não sejam prejudicadas por isso e percam competitividade”, conta.

O executivo aponta ainda que a ideia do IDV é aprofundar o diálogo do grande varejo com os três poderes, porém diz que é preciso criar mecanismos para que o governo consiga sobrepor sua agenda à do Legislativo. “Vamos ver o que conseguimos fazer sem ter a necessidade de passar pelo congresso”, afirma.

A ascensão política do grande varejo

O ex-presidente da Riachuelo e pré-candidato à presidência da República em 2018, Flávio Rocha, disse que o varejo de alta performance ocupou gradualmente um protagonismo no debate político no Brasil a partir dos anos 2000. “Não existe País de primeiro mundo sem um varejo de primeiro mundo. Em 2003, quando fomos para o encontro da NRF pela primeira vez, nós ainda tínhamos na cabeça aquele espírito de vira-lata”, afirma o empresário.

Rodrigo Garcia, vice-governador de São Paulo, reforça o papel político do varejo como facilitador de acesso a renda e bens de consumo. “O varejo é o maior empregador da área privada e cumpre a Constituição do Brasil, que prega um estado de bem-estar social, ao oferecer acesso a emprego, renda e bens de consumo, ”, destaca.

Para Rocha, o varejo trouxe mudanças na pirâmide social, que transformou o eleitor/consumidor de súdito em protagonista. “Os 98% dos brasileiros que puxam a carruagem estão aqui para tirar o Estado das mãos de uma elite burocrática. O protagonista é o povo brasileiro, o cidadão, eleitor e consumidor brasileiro”, afirma.