2019 ainda pode ser transformacional para o Brasil

Os próximos três a quatro meses serão cruciais. Olhando para o médio-longo prazo, continuamos otimistas e acreditamos que a bolsa é a melhor classe de ativos no País

Os acontecimentos políticos da terceira semana de março jogaram um banho de água fria no otimismo que pairava no mercado financeiro. A semana começou com o Ibovespa batendo a tão esperada marca histórica dos 100 mil pontos. Porém, o movimento perdeu força seguindo desapontamento com a proposta para aposentadoria dos militares e prisão do ex-presidente Michel Temer, que elevou o grau de incerteza em relação à priorização, velocidade e riscos “imponderáveis” para a aprovação da Reforma da Previdência.

Os próximos três a quatro meses serão cruciais. O avanço da agenda reformista pode ser transformacional para o Brasil. Entretanto, o duro processo de negociação adiante para a Reforma da Previdência e uma série de riscos podem aumentar a tensão, elevando a volatilidade. Olhando para o médio-longo prazo, continuamos otimistas e acreditamos que a bolsa é a melhor classe de ativos no Brasil, com um risco-retorno muito atraente.

Essa valorização aconteceria, principalmente, através de: (1) revisão de lucros, seguindo recuperação da economia e a alavancagem operacional das empresas; (2) menor taxa de desconto, com um risco estruturalmente menor no Brasil e (3) maior alocação de ativos domésticos para a bolsa, com diminuição da alocação em renda fixa já que juros baixos por mais tempo eleva a busca por investimentos com maior atratividade.

Sobre o primeiro ponto, a capacidade ociosa das empresas no Brasil é alta devido ao baixo crescimento econômico nos últimos anos. Ou seja, são como um avião que faz viagens para poucos passageiros e há assentos vagos, mas custos como combustível e manutenção já estão sendo pagos. Assim, só precisa de mais passageiros para aumentar a receita da aeronave, o que aconteceria com o crescimento da economia.

Por outro lado, esse crescimento pode ser mais lento que o esperado. O PIB do quarto trimestre despontou, fechando 2018 em 1,1%, e se carrega para 2019. A retomada do mercado de trabalho segue tímida (12% de desemprego), enquanto os dados de crédito para janeiro apresentaram leve desaceleração. Do lado positivo, uma retomada mais gradual, combinada à expectativa de aprovação da Reforma da Previdência, torna mais provável um cenário de juros baixos por mais tempo, o que é positivo para a bolsa.

Os juros baixos por mais tempo eleva a busca por investimentos com maior atratividade, fazendo com que haja maior alocação de ativos domésticos para a bolsa, com diminuição da alocação em renda fixa. Atualmente, a alocação de recursos em ações está em 6,9% no Brasil, abaixo da média de 8,5% e do pico de 14% em 2007.

Por fim, uma menor taxa de desconto, com um risco estruturalmente menor no Brasil eleva o valor das empresas/ativos. Uma das metodologias mais aplicada para o processo de valoração de uma empresa/ativo envolve projeção dos resultados futuros. Esses resultados são descontados a uma taxa que reflete o risco do negócio e traz os valores futuros ao valor equivalente no presente. Com isso, o menor risco Brasil faz com que a taxa caia e o valor da empresa/ativo aumente.

Portanto, apesar do crescimento econômico mais lento que o esperado, a combinação de potencial recuperação pela frente, com materialização da agenda reformista ainda tem chance de fazer de 2019 um ano transformacional para o Brasil.