O omnichannel começa pelo estoque

Novas soluções aparecem no mercado para unir os estoques do on e do off-line e conectar toda a operação, do backstage ao meio de pagamento

Núbia Mota, da VTEX: varejo ainda sofre para acertar a mão do estoque dividido entre físico e on-line (crédito: Marcelo Justo)

A busca por produtos no varejo se tornou majoritariamente on-line. Uma pesquisa da Deloitte afirma que 71% das pessoas usam ferramentas virtuais antes de visitar uma loja. Apesar disso, apenas 4% das vendas são concluídas no on-line, segundo dados do Ebit. A loja física ainda concentra a consumação das vendas. Por conta disso, unir os estoques das lojas físicas com os da on-line tem-se tornado uma das preocupações centrais do varejo no processo de transformação digital.

A dificuldade em manter os estoques saudáveis aumenta em tempos de integração de canais. “Muitas vezes, o varejo não acerta a mão na quantidade de estoque que tem no e-commerce dividido com as suas lojas físicas”, afirma Núbia Mota, diretora de Omnichannel da VTEX, empresa especializada em tecnologia para o varejo.

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A falta de uma orquestração dos diferentes canais da operação dificulta a preparação do estoque de acordo com o desempenho de cada canal. Uma alternativa para resolver esse ponto é o exemplo da C&A, uma das clientes da VTEX. A varejista fast fashion permite hoje que mais de 30% das vendas realizadas no on-line sejam retiradas na loja física. “O varejista que já tem a estrutura para abastecer suas lojas ganha uma economia de frete absurda na compra porque já tem essa estrutura para alimentar a unidade e não precisa ter mais um espaço”, explica Núbia.

O setor de moda é o que tem um dos maiores ganhos com a integração dos estoques. Na média, os clientes de moda da VTEX economizam de 2% a 3% com ganho operacional e logístico relacionado à integração dos estoques. A Animale tem conseguido resultado quase três vezes maior que a média na redução de custos logísticos, segundo a VTEX.

Tiago Dowsley, head de Digital do Grupo Soma, dono da Animale, conta que a marca conseguiu ligar o estoque entre as lojas e os centros de distribuição que eram dedicados apenas ao e-commerce. “A gente consegue com isso aumentar a disponibilidade de estoque para o cliente. Peças que não tinham no estoque do e-commerce agora podem ser encontradas ou na loja ou em outros CDs”, explica o executivo.

Com a união dos estoques, a marca também relata distribuição de produtos e cálculo de comissões mais eficientes. “Todos os envolvidos na transação do ship from store são incentivados. Então, o vendedor ganha comissão, a loja vende mais e bate metas. Quando a loja vende produto através do site ganha comissão como se vendesse na loja”, afirma Dowsley.

Loja da Animale (divulgação)

Do RFID à maquininha-faz-tudo

Do segmento de moda para o varejo como um todo e para outras indústrias, como a de produção de medicamentos e até de serviços de aviação, a tecnologia RFID também tem-se mostrado, há algum tempo, uma solução eficaz no controle de estoque.

A tecnologia é usada no backstage, permitindo que o produto seja traqueado ao longo da cadeia. “Consigo ver quanto tem no centro de distribuição, no estoque e na frente de loja. Com tecnologias como código de barra, a precisão sobre o controle da peça é de 60% a 65%. Com o RFID, a acuracidade fica entre 96% e 99%”, explica Fabiana Wu, gerente de Desenvolvimento de Negócios América Latina da Avery Dennison, especializada em tecnologias de identificação por radiofrequência.

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Um estudo apresentado pela Cielo aponta que a tecnologia de visualização do estoque pelo vendedor pode reduzir um atendimento de quatro para apenas um minuto. Um checkout de três minutos pode ser realizado em dois com a integração, e a agilidade permite incrementar em 25% o número de clientes atendidos.

A MMartan adotou a LIO, plataforma da Cielo, para fazer a integração de toda a operação da loja. Dentro da maquininha (que deixou de ser apenas um meio de pagamento) é possível acessar mais de cem aplicativos originais ou criar o próprio.

MMartan do MorumbiShopping

Um dos apps da LIO permite ao vendedor atender o consumidor longe do caixa, acessar o estoque e concluir a compra. “Tem o estoque dentro do módulo de vendas. O varejista pode usar o aplicativo para cadastrar o estoque e saber o que ele tem sem precisar de um computador. E a distância”, explica Rogério Signorini, diretor de E-commerce e Canais Digitais da Cielo.

Saúde dos estoques

A otimização dos estoques está diretamente relacionada à eficiência das operações de varejo. O Índice de Estoques (IE), calculado pela FecomercioSP, aponta que a saúde dos estoques caiu pelo quinto mês consecutivo na cidade de São Paulo ao passar de 104,8 pontos em agosto para 104,2. A queda em relação ao mesmo período do ano passado foi de 5,8%.

Fabio Pina, assessor econômico da FecomercioSP, afirma que dois terços dos estoques inadequados possuem volume acima do ideal, enquanto, na média, um terço corresponde a estoques com menos produtos do que deveria.

Pina avalia que uma recuperação da qualidade dos estoques parou depois do primeiro trimestre deste ano. Ele afirma que a greve dos caminhoneiros teve uma participação nesse quadro, mas que a importância do evento foi muito mais “simbólica”, porque, segundo o consultor, “coroa um processo de desencantamento” do consumidor e do lojista com a situação econômica do País. “Para o lojista estar desconfiado ele precisa estar vendendo pouco”, avalia Pina.

Para Pina, a perspectiva é que o controle dos estoques no varejo melhore a partir do ano que vem, diante de uma estabilidade, que, segundo ele, sempre se confirma depois de uma eleição. Além das questões macro, a esperança é que a tecnologia otimize as operações de varejo gradativamente, com a inserção de novas soluções que permitam que as lojas (on e off) conversem entre si e estas com os consumidores, independentemente do canal por meio do qual eles escolhem comprar.