Fim da privacidade pode redefinir o conceito de transparência das empresas

Para Pedro Doria, o primeiro desafio será unificar globalmente o conceito de privacidade e a sua importância. E depois, aceitar que ela pode estar no fim

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O jornalista e escritor Pedro Doria cobre tecnologia há mais de 20 anos. Se nos anos 90 ele teve que explicar aos leitores que se familiarizavam com a internet o que era um e-mail, hoje ele se dedica a explicar o que é privacidade, para então falar sobre o fim dela na era dos dados. “Parece uma pergunta trivial, mas todos têm dificuldade de responder para que serve a privacidade”, diz ele, lembrando que questões como traje de praia, valor do salário, vida privada de pessoas públicas ou nudez são vistas com diferenes graus de nível de privacidade nos diferentes lugares do mundo.

“E então temos as empresas globais que arrecadam uma quantidade imensa de dados e nem sequer temos um conceito único do que é público e do que é privado”. É esse o desafio das marcas e empresas quando pensarem em dados e privacidade, que, segundo Pedro, são as duas palavras que devem pautar as discussões sobre o relacionamento com o consumidor nos próximos anos, apontou durante sua participação no Conarec, congresso internacional de relacionamento empresas e clientes, promovido pelo Grupo Padrão, e que acontece entre terça-feira (04) e quarta-feira (05) em São Paulo.

Para Doria, mesmo a formalização de uma rígida regulamentação europeia sobre privacidade de dados pessoais, a chamada GPDR, ou a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais sancionada recentemente no Brasil não podem garantir totalmente a privacidade dos dados. “Evidentemente que nada que seja digital é seguro. O digital é basicamente uma cópia”. E, como destaca o livro ‘A sociedade transparente’, de David Brin,  com a tecnologia digital, nós ‘copiamos’ tudo, não apenas nudes, brinca ele, mas os passos que damos, as buscas que fazemos, as fotos que registramos, os endereços que pesquisamos, dados bancários e documentos, fazendo um levantamento rápido.

Hoje, esse volume de informações de cada um de nós está em poder de cinco grandes empresas – Facebook, Google, Apple, Microsoft e Amazon – e que devemos optar se  escolhemos viver em uma sociedade em que um número pequeno de empresas vai saber tudo de todo mundo ou se tornamos a informação pública e todo mundo vai saber tudo de todos. No primeiro damos muito poder a um grupo bem pequeno, mas mantemos a sensação de privacidade e no segundo damos poder a todo mundo, mas perdemos a definição das relações, uma vez que a privacidade pode ser vista como aquilo que nos mantém próximo ou distantes com o outro. “Esse é um dilema que quando ele [Brin] botou na mesa nos anos 1990 pareceu ficção cientifica e hoje ele está cada vez mais na discussão política”.

E o próximo passo será entender como e até que ponto seremos ou poderemos ser manipulados pelo uso desses dados com potencial de venda extraordinário: de chocolate ao próximo presidente dos Estados Unidos. “Ainda não começamos a perceber que tipo de manipulação e o quanto as pessoas poderão ser manipuladas ou não.  Quem tiver poder e controle sobre esses dados vai ser capaz de fazer coisas incríveis para o bem ou para o mau”.

 

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