Transformação digital e sustentabilidade podem – e devem – caminhar juntas

É importante que as empresas entendam seu impacto social e ambiental, principalmente em um momento que os consumidores se importam com isso. Isso é a base da transformação

Em um mundo tecnológico, as empresas precisam analisar as mais diversas variáveis para manter sua atuação. No painel “A revolução no varejo. Como a transformação digital e a sustentabilidade estão mudando o negócio”, do BR Week 2018, essa visão foi bastante debatida. Como coloca o mediador Oliver Cunningham, sócio da KPMG, os negócios estão mudando muito.

“Hoje, falamos de cadeias integradas, que cada vez mais migram para modelos futuros que não conseguimos imaginar”, destaca. “E todos os negócios precisam pensar em sustentabilidade”.

Vanessa Gordilho, diretora de varejo da Mastercard, explica que a companhia tem uma grande preocupação sobre como levar o negócio para frente junto de uma ideia sustentável. Tecnologias como RFID permitem que os varejistas dêem um passo além. “Hoje, precisamos de eficiência, pensamos em um modelo omnichannel”, diz.

Para Fernando Boscolo, country manager da Privalia, a sustentabilidade tem uma forma ampla, com três pilares. A empresa precisa ser sustentável economicamente, socialmente e ambientalmente. Com suas mudanças, o mercado requer mais velocidade, as pessoas são cada vez menos fiéis a marcas. Isso requer mudanças, inclusive sobre novos pontos de venda. “Precisamos ter uma visão de que não é possível ser sustentável sozinho, são necessárias parcerias. Parcerias de tecnologia, na adoção de ideias e estratégias sustentáveis, enfim, em toda a atuação”, acredita. É necessária uma visão conjunta.

Nesse sentido, Ítalo Freitas, presidente da AES Tietê, explica que a companhia atua tanto com energia hidrelétrica quanto solar e eólica. A empresa tem uma área de gestão de energia que auxilia o cliente a entender o segmento – que, na sua visão, é base de qualquer ideia de sustentabilidade. O executivo explica que a empresa hoje tem soluções que reduzem custos e auxiliam os negócios a gerir melhor sua energia. “Muitas tecnologias estão entrando no setor, como blockchain e mesmo a energia solar, e por isso cada vez mais se torna mais simples reduzir custos”, explica.

Atuação

Cunningham lembra que a sustentabilidade demanda uma visão integrada. “O Brasil tem uma característica de ser muito fragmentado, talvez por isso para o país é mais difícil acompanhar o ritmo de outros países”, analisa. Assim, questiona a Tomas Tochtermann, presidente do conselho da Tom Tailor Holding e chairman na Danish Fashion Institute, a sua visão sobre como é possível passar por essas barreiras.

O executivo explica que entende o desafio, pois nem todos acordaram para a necessidade da mudança. Empresas maiores tem essa noção, existe um grande interesse da sustentabilidade. Em alguns conselhos que o executivo participa, vê empreendedores interessados em mudar, mas existe uma grande diferença entre empresas que já sabem para onde ir e empresas que não tem noção do que está acontecendo, não sabem como chegar. “Eu acho que isso muda de região para região. O contexto cria a necessidade”, reflete.

Vanessa lembra que a preocupação com a sustentabilidade cria um vínculo diferenciado com o consumidor. As empresas que sabem disso se diferenciam bastante. “Os consumidores têm preferência por essas marcas”, diz. Ao mesmo tempo, Boscolo complementa: não adianta ter uma postura sustentável apenas na teoria, não dá mais para enganar, dizer que é sustentável sem realmente ser na essência. “Não adianta ter lojas naturebas, mas gastar mais água e energia. Os clientes estão atentos a isso”.

Possibilidades

Freitas conta um case da AES Tietê no varejo, uma parceria realizada com a Drogaria Araujo, de Minas Gerais. Eles fecharam uma usina de energia solar para todas as suas lojas. “Todos os consumidores que entrarem em suas lojas saberão que estão dentro de uma marca que usa energia renovável, isso faz diferença”, garante. E mais, a rede conseguiu reduzir o custo da sua energia em 20%.

Tochtermann ressalta que realmente existe essa necessidade de se diferenciar. Como o caso da energia, faz diferença na cabeça dos consumidores. Infelizmente, nem sempre o consumidor sabe se o produto é sustentável ou não. Além disso, alguns consumidores, como os alemães, preferem produtos bonitos, bem feitos, não pensam na sustentabilidade. No entanto, isso está mudando e o público presta cada vez mais atenção nisso.

O sócio da KPMG compartilha da mesma visão. Cunningham acredita que está emergindo uma geração nova de consumidores que traz essa mudança. “As empresas estão passando por uma transformação difícil porque a cobrança que vem do cliente é muito grande, é uma geração que quer saber quem é mais sustentável ou não, quem é mais ágil ou não”, diz. É um desafio para as empresas. Os novos modelos de negocio novos demandam modelos mentais novos. As empresas já fazem isso?

Transformação e sustentabilidade

Boscolo, da Privalia, acredita que o primeiro modelo mental que está cada vez mais forte é ser ágil. Testar, ter ideias novas, estar o tempo todo em mutação. “A única certeza que temos hoje é que amanhã tudo será diferente, não dá para saber como serão os próximos cinco anos”, afirma. “Acho que a gente tem que se concentrar mais em fazer diferente hoje, nos preparar para perceber mudanças e mudar rapidamente, em vez de tentar prever como serão as coisas”. Mudar de forma rápida e barata.

A Mastercard, por exemplo, tem se posicionado como empresa de tecnologia. No varejo, a tentativa é estar próxima do lojista para garantir que o pagamento seja ágil, que a transação aconteça da melhor forma. Porém, a diretora de varejo explica que sempre que analisa os quadros do varejo, diversos desafios aparecem. “Não adianta tentar digitalizar tudo, as pessoas querem testar. Tudo que envolve agilidade, tem desafios”, diz. A gente tenta sentar junto para ver que desafios conseguimos transpor.

“As empresas precisam se adaptar, abraçar o conceito de agilidade, mostrar que estão preocupadas com cliente”, complementa Freitas. Sobre isso, Tochtermann conta que quando conversa com empresas sobre transformação digital, muitas visualizam isso apenas na venda – como ter canal off e online. Mas o maior desafio está no sistema operacional das empresas, pensar num design, digitalizar processos. “Esse será o trabalho mais difícil a ser feito nos próximos anos”, analisa.

Processo

Cunningham lembra que existe uma questão sobre despertar para a transformação. E isso levanta muitas barreiras que precisam ser superadas. Sobre isso, Boscolo acredita que a tecnologia em si não leva a nada, as empresas precisam saber disso. O ponto é o que a tecnologia faz pelo cliente. “Toda a indústria precisa prestar atenção sobre o que fazer de melhor para o cliente. Hoje, temos um modelo customizado de atuação. As empresas precisam ter produtos e serviços adaptáveis às necessidades do cliente”, diz. A digitalização faz sentido se acontecer a propósito da necessidade do cliente. É preciso ver caso a caso o que realmente é demandado, inclusive para buscar parcerias.

Outra necessidade é o engajamento do time. Vanessa, da Mastercard, lembra que muitas vezes a solução vem, mas os funcionários na ponta não estão engajados como seria ideal. “As pessoas não são totalmente digitais, precisa existir uma parte educacional. As pessoas da ponta precisam ser engajadas no processo digital”, destaca.

De fato, não dá para simplesmente começar a colocar tecnologia dentro da operação sem passar por um caminho de mudança, é como um corpo estranho que entra no organismo, que acaba sendo expelido. Precisa de planejamento. Uma solução pode ser a parceria entre pequenas empresas, ou startups, com as grandes corporações. Esse ecossistema é benéfico para os negócios. Tudo passa por uma questão de adaptação.