Meios de pagamento e de fazer o bem: a hora do social commerce

Quem diria: o SXSW mostrou que os meios de pagamento agora podem ser usados a serviço do bem comum. Entenda como isso é possível 

Jacques Meir

Austin (EUA) – Há uma transformação sensível no horizonte dos meios de pagamento. Realidade aumentada, pagamento por hashtag, bots de conversação e mensagens. Essas são tecnologias que atingem a maneira pela qual usamos cartões de débito, crédito e carteiras digitais – há quem diga que esses meios, por sua vez, correm o risco de serem substituídos em larga escala por aplicativos diversos. Estamos entrando em um momento no qual o social prevalece e onde a mídia social parece moldar o futuro do varejo. 

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Essa transformação intensa permite que companhias novas, disruptivas, baseadas em pagamento social consigam abrir mercado, combinando a habilidade de comprar, pagar e doar por meio das mídias sociais. Este foi o contexto do painel “O pagamento agora é viral: a ascensão do social commerce”, no SXSW. Um debate que mostrou uma nova face dos meios de pagamento: do comércio convencional, para o P2P (de pessoa para pessoa) até a caridade, o que funciona e o que deixa a desejar na forma com que os consumidores irão usar o seu dinheiro no futuro próximo.

Os participantes do painel, Dale Nirvani Pfeifer, CEO da Goodworld, recentemente apontada como uma das empresas mais inovadoras do mundo pela Fast Company; Hans Morris, veterano da indústria de meios de pagamento, sócio-diretor da Nyce Partner – um Venture Capital para Fintechs – e Kahina Van Dyke, Diretora Global de Parcerias de Comércio e Pagamento do Facebook conduziram uma discussão surpreendente sobre essa face social e pouco conhecida dos meios de pagamento.

Do cartão para a rede social
Kahina Van Dyke é um bom exemplo dessa transformação. Depois de trabalhar por 20 anos na indústria convencional de cartões de crédito, ela se juntou ao Facebook, porque viu na empresa uma paixão genuína para ajudar a melhorar o mundo por meio da expansão de marketplaces digitais. Ela diz que, em dado momento, percebeu intensa movimentação no Sudeste Asiático, que mostrava como as pessoas gostavam de tirar fotos de produtos nas lojas, como forma de fazer um inventário digital e que permitisse aos varejistas falarem diretamente com seus clientes. Uma experiência social. Uma vez que as fotos mostravam o produto desejado pelo cliente, a loja recebia o depósito e despachava o produto. Uma disrupção no horizonte do e-commerce convencional.

A executiva também destacou o processo acelerado de bancarização na Índia, com efeitos sociais extremamente benéficos. Hans lembrou que não há um sistema internacional de autenticação e que a ideia do Facebook é funcionar como esse sistema, na medida em que não é possível manter duas identidades reais nessa rede social, apenas uma.

O mundo é bom
Nirvani Pfeiffer, CEO da Goodworld, empresa que se empenha em tornar o processo de caridade e doação mais viral e simples por meio das mídias sociais, desenvolveu uma prática que consegue mobilizar cidadãos em torno de causas muito rapidamente. Hans levanta a questão de como é possível confiar em processos de doação por meio de redes sociais. Nirvani diz que o princípio é simples: a partir de uma hashtag, pessoas dedicam-se à uma causa e então são seguidas por pessoas que as conhecem. Todos confiam em quem conhece. Logo, a Goodworld consegue taxas incríveis de adesão simplesmente usando pequenas redes individuais para mobilizar uma causa.

Segundo Kahina, o Facebook também incentiva políticas e campanhas de doação. Ele usa a força das comunidades para viabilizar, com Visa e Mastercard, os meios para facilitar doações. A ideia básica é utilizar a tecnologia dos meios de pagamento para que possam doar e participar mobilizações de forma simples e rápida. Para o Facebook, formatos e transações P2P não configuram comércio exatamente, mas conexōes entre pessoas e, por isso, são incentivadas. Como a visão do Facebook é conectar o mundo todo, isso pressupõe conectar também os pequenos negócios, gerar prosperidade por meio de uma plataforma que possa gerar negócios em rede, em torno de uma comunidade, o que é e sempre foi uma característica do varejo.

Basicamente os processos de doação seguem a lógica de faturamento do e-commerce: a escolha da campanha, a verificação do valor a ser pago, a “cobrança” que conecta a bandeira do cartão, o adquirente, o banco pagador, o recebedor, a autenticação. A diferença fica justamente por conta da destinação do dinheiro. Empresas como a Goodworld e a divisão de caridade do Facebook conectam-se com instituições não orientadas ao lucro e então dedicam-se a criar verdadeiros marketplaces de oferta e captação de doações para causas diversas e autênticas. 

O social commerce “vende” causas
A ideia de social commerce mobiliza corações e mentes nos mercados maduros. No ambiente do SXSW é quase uma profissão de fé. Os painéis acontecem sempre em salas lotadas e recebem muita interação dos participantes, com muitas perguntas e interesse manifesto.

Esta tendência aponta para a criação de um ecossistema robusto de empreendedores sociais, conectados na lógica P2P, que podem usar meios de pagamento convencionais ou desenvolver novos meios, baseados na conectividade de pessoas. Podemos até mesmo pensar em modelos híbridos, nos quais empresas varejistas possam se conectar a redes P2P para colaborar com campanhas de doação. É uma forma de recuperar mercados e criar oportunidades. Varejistas como Toms Shoes e Warby Parker seriam os precursores desse movimento?

*Jacques Meir é Diretor de Conhecimento, Conteúdo e Comunicação do Grupo Padrão.