A potência do comércio de rua para a expansão do varejo

Propostas para o novo Plano Diretor de São Paulo apostam na democratização do espaço urbano e podem beneficiar a atividade varejista

 

A expansão do varejo por pontos diferenciados da cidade é um potencial de oportunidades, explica o vereador José Police Neto, ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo e relator da revisão do Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo. Enviada à Câmara em setembro de 2013, a revisão tem como foco principal estabelecer um novo modelo de desenvolvimento urbano diretamente ligado ao enfrentamento das expressivas desigualdades socioterritoriais presentes na capital paulista.

A proposta para o novo Plano traz diversas bases que realçam o aproveitamento do espaço físico urbano. Calçadas mais largas que propiciem o deslocamento dos pedestres, desestímulo às vagas de estacionamento, utilização do térreo residencial para atividades comerciais e limite de 25 metros de altura para os prédios (aproximadamente oito andares) são alguns desses objetivos. Mas o que isso significa para as atividades econômicas?

Para José Police Neto, a inovação está na liberação de empreendimentos não residenciais para todas as ruas locais nas zonas mistas da cidade. A atividade que antes estava reservada às vias coletoras, aprovado o novo plano, migra para todas as vias locais que tinham impedimento. Se o varejo se espalhar por diversas regiões, reduzirá distâncias, tornando a cidade mais eficiente em um cenário de dificuldades de mobilidade e logística.

Atualmente, o deslocamento médio em São Paulo é de 90 minutos. Anualmente, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), o congestionamento custa R$ 48 milhões para a Prefeitura. ?Não faz sentido permitir que o nó da mobilidade se torne o nó da cidade?, explicita Neto, que chama a atenção para o potencial comercial presente nas atividades alocadas nos térreos. ?O plano aponta para uma cidade que precisa recuperar a rua?, comenta.

Neste sentido, a revitalização da rua Oscar Freire se mostra como um exemplo prático que deu certo. Encabeçada pela Associação dos Lojistas do Jardins (ALOJ), a reurbanização foi realizada em 2006, mas já existe planos para uma segunda edição.

Rosangela Lyra, presidente da ALOJ, explica que, quando houve uma grande concorrência entre os principais shoppings de São Paulo, a rua foi a principal prejudicada. Fora isso, os custos para instalar uma loja externa são muito maiores, aumentando o interesse dos lojistas nos shoppings.

A revitalização colocou o conforto dos consumidores como foco e aliou a estética urbana para instigar o interesse do público. O enterramento dos fios elétricos, alargamento das calçadas (item presente no novo Plano Diretor), a arborização, bem como a padronização do mobiliário, foram alguns elementos utilizados. Após as reformas, a Oscar Freire foi eleita a 8ª rua mais elegante do mundo pelo instituto Excellence Mistery Shopping. ?É a única região de comércio diferenciado a céu aberto de São Paulo. Um centro de tendências, com lojas conceito de diversas marcas?, relembra Rosangela.

Lyra defende que filiais montadas nas ruas tem maior capacidade de inovação, sua montagem pode apostar em diferenciais. Além disso, a grande variedade ofertada nos centers fechados também pode ser replicada no comércio exterior, mas com uma possibilidade maior de unir marcas democráticas e de luxo.

?A cidade não é estática. Uma rua local hoje pode ser coletora amanhã?. Em debate realizado entre Rosangela Lyra e José Police Neto durante a 2ª edição da Retail Real Estate, o vereador enfatizou a janela de possibilidades aberta por iniciativas desse gênero. A flexibilização é grande e pode sofrer muitas críticas, mas este é um momento de reinvenção. ?Hoje, temos 14 milhões de viagens a pé em São Paulo. Não faz sentido não aproveitar este público?, finaliza.